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sábado, 24 de março de 2012

Táticas 2 X 1 inimigas

Aviação de caça do mundo virtual com táticas do mundo real.
Dois caças MiG-29 Fulcrum atingidos antes do primeiro passe por mísseis IR all-aspect num dogfight 1 X 2.
(screen do Falcon AF)

Muitas vezes gosto de treinar combate (simulado) em situações desfavoráveis, tais como dogfight 1 x 2 [o que significa, eu sozinho (1) em luta contra (x) duas aeronaves inimigas (2)] num ambiente WVR (Dentro do alcance visual) com mísseis de orientação IR (infravermelho) all-aspecté claro que você nunca deve voar sozinho, mas você deve saber o que pode enfrentar caso seja forçado a entrar numa situação dessas. 

Apresento aqui minhas observações sobre as táticas empregadas pelos bandidos de inteligência artificial (AI) no Falcon 4 fruto de minha experiência nesta arena de combate virtual, as táticas 2 X 1 empregadas pelos bandidos costumam cair em quatro casos específicos:

- Welded wing / "Asas coladas"
- Lead trail / "Líder-reboque"
- Decoy shooter / "isca-atirador"
- Pincer / "pinça"
Cada uma delas com suas próprias características e algumas similaridades interessantes.

Welded wing

A "welded wing" não vem a ser exatamente uma tática, mas sim uma formatura cerrada, com as duas aeronaves muito próximas um da outra, e esta não é uma postura tática muito eficiente. Para quem a pratica, do ponto de vista ofensivo, ela concentra o poder de fogo e permite que ambas as aeronaves consigam alcançar o envelope de seus mísseis ao mesmo tempo (contra um mesmo alvo). Para quem a enfrenta, poderá ter de encarar dois mísseis IR ao mesmo tempo em direção a ele. Do ponto de vista defensivo, a welded wing é muito fraca na arena visual, facilita muito a detecção da formação, o rastreio e pontaria de ambas as aeronaves ao mesmo tempo.

Um elemento em formatura cerrada (neste caso echelon / "escalonada"), pode facilitar o acompanhamento do ala em voo "suave", mas em manobras de combate, o ala não consegue fazer quase mais nada além de tentar manter a formatura. Ambos compartilham o mesmo "ponto cego" na retaguarda.

Ao enfrentar bandidos que empregam a "welded wing", caso a detecção tenha sido bastante prévia e a distância/tempo permitam o bom emprego de métodos AAMD (defesa de mísseis all-aspect) IR, você muitas vezes poderá conseguir uma primeira oportunidade de tiro contra os dois bandidos visto que os dois atingirão seus parâmetros de tiro ao mesmo tempo, e "pilotos" de AI só disparam em situações de alta probabilidade de abate (PK). 

A maior dificuldade ao enfrentar a "welded wing" está na rápida troca de alvos no engajamento, que embora facilitada pela característica "dispare e esqueça" dos mísseis IR, a qual permite a liberdade de pontaria e disparo contra um alvo logo após o outro, a agilidade exigida por esta tarefa depende de treinamento e familiaridade com a operação da combinação HUD/RADAR no modo DGFT (dogfight), outra ferramenta muito útil nesta situação pode ser a combinação RADAR/HMCS que também exige familiaridade e treinamento.

Lead Trail

A "Lead Trail" é uma formatura mais aberta, na qual um dos membros do elemento inimigo voa á frente (o líder) de seu ala o trail (o reboque), separados por uma ou duas milhas, se esta formatura for mantida no decorrer do engajamento, e assim como no caso anterior, quem a enfrentá-la utilizar AAMD, pode ter bastante sucesso contra pilotos AI, pois é uma situação que permite que se enfrente um bandido de cada vez, em uma sequência dividida por um intervalo considerável, visto que o segundo membro afastado por alguma distância na formatura levará um tempo para alcançar o envelope do míssil contra você. Um piloto bem treinado pode enfrentar um elemento "lead trail" AI de forma consideravelmente segura.

Na formatura lead-trail, o líder tem a tem sua retaguarda (seis horas) assegurada pelo seu ala, mas o ala fica com sua própria retaguarda vulnerável.

Decoy shooter

Na decoy shooter o elemento bandido inicialmente pode apresentar vários tipos de formaturas de pré-engajamento, mas este caso é caracterizado por uma "quebra tática da formatura", esta é uma tática que explora a vantagem numérica da situação 2 X 1. Assim que um dos inimigos percebe via RWR que você "locou" o radar nele, ele se desvia ou começa a se afastar tentando chamar sua atenção em determinada direção, enquanto seu ala continua a se aproximar tentando atingir o envelope de seus mísseis e dispara enquanto você estiver distraído com a "isca".

Um piloto distraído pela isca (protegida pelo envelope de baixo aspecto), se expõe ao ataque do atirador que se aproxima para o disparo de míssil.

Caso a formatura inicial do elemento bandido seja do tipo "welded wing", um piloto menos experiente ao "locar" o radar em uma das aeronaves devotando atenção a esta "isca" inimiga, e se caso mantenha uma percepção enganosa de que ambos continuam "juntos" na formatura inicial, ele pode facilmente ser surpreendido pelo "atirador" desta armadilha.

Para evitar eventuais surpresas do tipo Decoy shooter, é importante utilizar o modo TWS do RADAR, que permite uma melhor visualização do aspecto de ambos os contatos na formação inimiga, permitindo a detecção da característica quebra de formatura desta tática. A ferramenta EXP do modo TWS é igualmente útil nesses casos.

Caso você tenha observado o desenvolvimento da Decoy shooter, você deve imediatamente trocar de alvo, é importantíssimo que você sempre mantenha o foco do engajamento na ameaça mais próxima, pois é esta que alcançará o envelope de mísseis contra você primeiro. É imperativo que você troque a isca que se afasta pelo atirador que se aproxima. Feita a troca de alvo, a evolução do engajamento fará a aeronave isca retornar, o que muitas vezes resultará numa formatura lead trail (até mais expandida), já tratada anteriormente. 

Pincer

A Pincer sem dúvida nenhuma é a mais perigosa das quatro táticas inimigas, ela é uma expansão tática das vantagens de uma formatura Spread. A Spread é uma formatura mais aberta assim como a lead trail, mas a separação agora é lateral com ambas as aeronaves voando de forma paralela lado-a-lado, a separação é de uma a duas milhas variando com as necessidades táticas, tamanho das aeronaves e condições de visibilidade. 

A formatura spread, permite uma vigilância visual cruzada com um vigiando a seis horas do outro, e oferece espaço de manobra.

A formatura spread é considerada por muitos como a melhor formatura defensiva de cruzeiro, pois a disposição mais frouxa das aeronaves, além de outras qualidades, dificulta a detecção de ambas as aeronave, e permite uma vigilância visual cruzada entre os membros do elemento, permitido que cada um veja os pontos cegos do companheiro, além de oferecer espaço de manobra (principalmente defensivas) para ambos. 

Durante o pré-engajamento, na preparação para o ataque, a formatura (independente de qual seja) é quebrada na execução da Pincer expandindo a separação mantida lado-a-lado, o objetivo é forçar um adversário solitário a se comprometer com uma das aeronaves da formação enquanto a outra se posiciona para o tiro. Até certo ponto a Pincer pode ser vista como uma versão mais sofisticada e mais ofensiva da decoy shooter, mas neste caso, ambos continuarão se aproximando de você. Na pincer você será forçado a escolher um dos dois para enfrentar, mas saberá que o outro também vem para cima de você.

Bandidos usando a tática Pincer, forçarão você a escolher um entre eles, dificultando a visualização de ambos, dando liberdade ao outro bandido.

Do ponto de vista ofensivo separação lateral faz com que ambos atinjam seus parâmetros de tiro quase ao mesmo tempo, e quando o alvo da mesma se compromete com uma das aeronaves a outra pode muitas vezes agir impunemente, podendo até entrar em perseguição atrás da vítima, entretanto no mundo atual dos mísseis all-aspect, isso nem será necessário.

Na Pincer, mesmo que o bandido engajado não consiga efetuar um disparo antes do primeiro passe, seu colega fica em condição mais confortável para um disparo de alto PK.

Do ponto de vista defensivo, a Pincer melhora as chances de sobrevivência da formação que a utiliza, sempre diminuindo a exposição de uma das aeronaves na situação 2 X 1. A maior separação dificulta muito a visualização de ambas as aeronaves, o rastreio e tiro contra ambas as aeronaves ao "mesmo tempo" (numa sequência de intervalo curto) visto que enfrenta duas aeronaves que atingirão seus parâmetros de tiro quase simultaneamente.

Pode ser muito difícil conseguir sobreviver a um ataque feito por bandidos executando uma Pincer, pode ser até aconselhável fugir de uma situação dessas, como ambos os adversários nem sempre estarão dentro do restrito campo visual da simulação, e todas as complicações de trocar de alvo quando ambos estão em "pedaços" separados e distantes do céu, o que consome tempo e manobras para pontaria e disparo contra o segundo membro da formação inimiga.

O bom uso de AAMD aliada à combinação RADAR/HMCS podem oferecer algumas chances até mesmo de vitória num engajamento contra um elemento executando a Pincer, mas certamente é o desafio que exige mais treinamento, astúcia e disciplina do que os outros.

Conclusões

Para todos os casos acima, a situação foi de combate de alto aspecto, ou seja bandidos vindo de frente dentro do hemisfério frontal, com bandidos detectados e identificados, e  supondo que se faça a utilização de mísseis IR dentro de seu envelope efetivo.

Como você pode perceber, no texto acima tratei do enfrentamento de pilotos de inteligência artificial, contra pilotos humanos a situação pode variar de forma espantosa. Contra pilotos humanos, você poderá observar desde atitudes e ações absurdamente toscas, até se surpreender com uma enorme dificuldade de combate. 

Os pilotos AI costumam disparar quando o PK do míssil é mais alto, o que geralmente pode dar a você uma primeira oportunidade de tiro, como uma regra geral da aviação de caça, quem atira primeiro leva vantagem, pois se o oponente ainda não atirou sua próxima ação será tentar se evadir do teu míssil que se dirige a ele. A preferência por disparos de alto PK pelos pilotos AI aumenta as chances de acerto dos mísseis deles, caso eles consigam disparar contra você. Caso você tenha atirado nele antes que ele tenha feito um disparo contra você, é bom que você consiga sucesso, porque do contrario, ele terá poupado um míssil e você terá perdido um.

Adversários humanos nem sempre tem compromisso com alto PK, e farão disparos mais cedo, isso pode forçá-lo a iniciar manobras evasivas, que quando bem executadas podem ser mais eficientes contra mísseis de baixo PK, entretanto isso pode impedir que você faça um primeiro disparo.

Contra dois adversários, você deve estar pronto para combater as sobras, disparo de mísseis de alto aspecto (cara-a-cara), por motivos de problemas de detonação e outras variáveis, sempre haverá uma alta probabilidade de um dos bandidos sobreviverem aos primeiros disparos, alongando o engajamento, portanto é bom tentar conservar uma boa idéia de para onde vai o primeiro bandido alvejado, e tentar avaliar os danos alcançados contra ambos; fumaça, fogo, pedaços da aeronave adversária e pára-quedas são indicadores de sucesso.

No caso 2 X 1, quando você leva um colega humano (como ala) contra um adversário, é melhor que vocês consigam fazer o bom emprego da tática Pincer, pois as vantagens são consideráveis na arena de combate visual.

Não mencionei detalhes sobre os métodos AAMD porque considero interessante mantê-las em sigilo, conservando tal conhecimento só para quem voa comigo, até mesmo a USAF, não divulga muito detalhes sobre isso, obviamente para aproveitar as vantagens.

 Glossário & Notas de tradução

AAMD - All-Aspect Missile Defense / Defesa de mísseis de todo aspecto - combinação medidas defensivas que permitem degradar o desempenho de mísseis disparados principalmente na situação "cara-a-cara" (de alto aspecto).

AI – Artificial inteligency / Inteligência artificial – Comportamento humano gerado artificialmente no ambiente de simulação.

All-aspect /Todo aspecto - característica de mísseis que podem ser disparados contra alvos que apresentem qualquer (ângulo de) aspecto, principalmente em situações de alto aspecto.

Aspecto - (ou "ângulo de aspecto") O ângulo de aspecto é a medida em graus entre a extensão traseira do eixo longitudinal do teu alvo e a tua linha de visada. É o ângulo que indica o quanto a tua linha de visada está fora de alinhamento com a calda do alvo (seis horas).

Dogfight / "briga de cães" - combate aéreo de curta distância ou arena visual (WVR).

Elemento - formação de duas aeronaves de caça, o elemento é a unidade mínima da aviação de caça. Sua organização administrativa é dividida entre a aeronave (ou piloto) "líder" e a aeronave (ou piloto) ala. Lead e Wingman em língua inglesa.

Envelope - Região em torno do alvo dentro da qual o emprego de uma determinada arma é mais efetivo, onde são atingidos os "parâmetros de tiro" e onde o PK é mais alto.

Formação - Conjunto de aeronaves voando agrupadas sob o mesmo comando com a mesma missão, na aviação de caça a formação mínima é o elemento, composto por duas aeronaves.

Formatura - É a disposição espacial na qual uma formação de aeronaves voa. Como você pode ver no texto, você pode "quebrar" a formatura para algum propósito tático, mas a formação é mantida. 

HMCS - Helmet Mounted Cueing System / Sistema de indicações montado no capacete - É um sistema inclui mostradores transparentes instalados no capacete do piloto posicionados diretamente a frente de seus olhos, tais mostradores apresentam informações da aeronave, navegação, o sistema também rastreia o movimento da cabeça do piloto podendo escravizar o radar ou a cabeça de busca de mísseis (ou ambos) permitindo fazer pontaria.

IR - Infrared / infravermelho - faixa de radiação eletromagnética correspondente á radiação térmica (calor), refere-se á sistemas de orientação de mísseis que rastreiam o "calor" da aeronave alvo.

Lead trail / ("líder-reboque") - Esta formatura tem outros nomes como apenas "Trail" ou "line astern", na Força Aérea Brasileira é conhecida como "cobrinha".

"Locar" (corruptela do termo locking - "trancar") Efetuar o segundo estágio de acoplamento radar.

Pincer / "Pinça" - Esta tática também tem outros nomes como "coração polonês" ou "Bracket". No "Brevity conde" da OTAN.  (Organização do Tratado do Atlântico Norte) a mesma tática é chamada Pincer quando executada pelo inimigo, e Bracket quando executada por amigos.

PK - Probability of kill / Probabilidade de abate - É uma medida estatística (na verdade mais intuitiva do que estatística) da probabilidade de determinado míssil abater o alvo, esta depende de vários fatores, o mais significativamente é à distância de lançamento.

Spread - ("dispersa ou expandida") Esta formatura tem vários nomes como "Combat Spread" ou "line abreast", na Força Aérea Brasileira é conhecida como "Linha de frente". As principais vantagens da Spread são defensivas, ela permite que um piloto vigie visualmente os pontos cegos do colega (a baixo e atrás da aeronave), e vice versa, fornece espaço de manobra (principalmente as defensivas) além de dificultar a detecção da formação, ou do colega caso um deles seja visualizado previamente. 


welded wing - ("asas coladas") - Formatura cerrada, com as aeronaves em voo muitíssimo perto uma da outra.

WVR - Within Visual Range / Dentro do alcance visual - Qualidade de arma ou combate que acontece dentro da arena visual, onde os envolvidos podem ser "vistos" pelos olhos dos pilotos em oposição à situação BVR (Beyond Visual Range / Além do alcance visual). 


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

TOWERING INFERNO

Aviação de combate do mundo real.

Por Rodney Adorno


Logo após o então revolucionário F-15 Eagle entrar em serviço na USAF (Força Aérea dos Estados Unidos), percebeu-se que mesmo ele trazendo uma série de novidade para o combate, e embora fosse equipado com uma versão mais moderna do míssil AIM-7F Sparrow de orientação semi-ativa, a versão Foxtrot já era considerada bem mais desenvolvida e confiável que as versões utilizadas no conflito do Vietnã; sua arma de curto alcance o Sidewinder AIM-9J com buscador orientado por calor conhecido como míssil "rear aspect", que só era efetivo disparado contra alvos que apresentassem o "aspecto traseiro", pois tinham como alvo real a grande fonte de calor que era o tubo de exaustão do motor do "bandido". Esta séria limitação continuava obrigando o Eagle a curvar e manobrar para trás do adversário antes de ser disparado. Isto a primeira vista não era um problema para o Eagle que embora sendo uma aeronave grande, apresentava uma ótima manobrabilidade, mas nem todos os cenários seriam favoráveis a este tipo de combate.
Além de ser uma arma de alcance BVR (alem do alcance visual) uma das vantagens do Sparrow é sua capacidade "all-aspect" podendo ser disparado contra um alvo que apresentassem qualquer um entre "todos os aspectos" possíveis, até mesmo o contra alvos vindo de frente, entretanto tal míssil exige que a aeronave lançadora foque a energia de seu radar no alvo até que este seja atingido. Contra muitos alvos, o Eagles muitas vezes seria forçado a entrar em ”dogfight“,como são conhecidos os combates a curta distância, que na época envolviam curvas violentas buscando ás "seis horas" (retaguarda) do oponente para o emprego do míssil Sidewinder, o que concentra a atenção do piloto no hemisfério frontal de sua aeronave, e tornando-o sujeito ao ataque por trás vindo de um outro bandido não observado.

AIMVAL/ACEVAL

Tanto a USAF quanto a USN (Marinha dos Estados Unidos) buscavam uma solução para a principal limitação do Sidewinder, e havia cinco propostas de novos mísseis que o DOD (Departamento de Defesa dos Estados Unidos) resolveu avaliar em um teste conjunto entre USAF e USN que ficou conhecido como AIMVAL /ACEVAL (Avaliação de mísseis de interceptação aérea / avaliação de combate aéreo) que ocorreu no ano de 1977 e utilizaria outra grande novidade conhecida como ACMI (Instrumentação de Manobras de Combate Aéreo), que permitia que pilotos com aeronaves reais em voo igualmente real fizessem combates simulados com mísseis virtuais.

ACMI

O ACMI é um sistema composto por casulos de telemetria, e uma área coberta por estações de monitoramento e registro de telemetria. O casulo ACMI tem o tamanho do corpo de um míssil Sidewinder que pode ser instalados no trilho de lançamento padrão do mesmo míssil, este equipamento mede a posição, velocidade, altitude, carga G e uma série de outros parâmetros transmitidos para as estações de telemetria dentro da área ACMI, o sistema serve entre outras coisas, para arbitrar combates aéreos simulados de treinamento ou testes, permitido validação de disparos de mísseis ou canhões, indicando em tempo real quem foi "abatido" na simulação. O sistema também faz o registro de todos os eventos da simulação permitindo uma posterior analise sendo uma excepcional ferramenta de debrifim, instrução e avaliação.

Casulo ACMI instalado em um F-15 Eagle.


Os rivais

O time azul utilizaria os F-15 (USAF) e F-14 Tomcat (USN) e o time vermelho utilizaria os F-5E Tiger II ativos nos esquadrão agressor que naquela época simulava aeronaves MIG-21 então empregados em larga escala pelo Pacto de Varsóvia e países não alinhados aos EUA. Os esquadrões agressores são dedicados ao emprego de táticas e doutrinas de combate orientais, simulando prováveis inimigos dos EUA, suas aeronaves inclusive utilizavam esquemas de camuflagem da União Soviéticas.
Os grandes e potentes Eagle e Tomcat pareciam ser devastadores, com seus igualmente grandes e potentes radares, e mísseis de médio alcance tinham tudo para trucidar os limitados Tigers, mas a coisa não foi bem assim. Como um dos principais objetivos do programa AIMVAL era testar os mísseis IR de curto alcance, seus organizadores impuseram regras de engajamento que exigiam identificação visual dos alvos antes do disparo, forçando o time azul a entrar na arena visual.



A diferença de tamanho entre o F-15 Eagle e o F-5 Tiger. 
O Agressor (bem menor) com esquema de pintura soviética para simular o MiG-21.



A aviação de caça dos EUA teve uma péssima experiência com tal regra de engajamento no conflito do Vietnã, embora lá tenham lutado com o também grande F-4 Phantom e já contassem com mísseis de médio alcance das primeiras gerações do Sparrow, o problema da identificação amigo/inimigo a grande distância, num ambiente cheio de aeronaves azuis e vermelhas, era realmente confiável apenas através dos olhos do próprio piloto, sendo proibitiva qualquer vantagem de disparo além do alcance visual, como os episódios de fogo amigo logo demonstraram. A pouca manobrabilidade do Phantom e sua enorme visibilidade causada por seus motores fumacentos e a limitada eficiências das primeiras gerações de mísseis, além de não contar com uma arma de cano, tiravam a maioria de suas "vantagens teóricas" contra os ágeis MiGs-17,19 e 21 do Vietnã do Norte.
A campanha de testes foi de junho a novembro de 1977, AIMVAL exigia 540 engajamentos válidos e envolveu 1.800 surtidas, ACEVAL exigia 360 engajamentos válidos e levou a 1.488 surtidas, além de uma série de outras surtidas de experiência para alcançar o nível de proficiência necessário sem contar os engajamentos invalidados. Os enfrentamentos AIMVAL iam de situações (1 X 1) onde um único Eagle ou Tomcat enfrentavam um agressor para situações 1 X 2, 2 X 2, 2 X 4. ACEVAL avaliou táticas e outros fatores que afetam o resultado dos combates aéreos tais como tamanho, razão de força e as condições iniciais (vantagem azul, neutralidade ou vantagem vermelha).


Tática X Vantagem/Desvantagem


Houve certa liberdade para que os pilotos buscassem suas vitórias estimulando assim sua criatividade e espírito combativo, resultando em artimanhas bastante curiosas.
Para contornar o problema da identificação visual, alguns pilotos de Eagle improvisaram a instalação de lunetas de pontaria para rifle sobre o painel de instrumentos de suas aeronaves, colimadas com o canhão. Uma novidade no F-15 era que um alvo rastreado por seu radar mesmo que fora do alcance visual era exibido pelo HUD (visor de cabeça erguida) por um símbolo quadrado conhecido como caixa designadora de alvo, o piloto então poderia manobrar a aeronave para posicionar esta caixa de alvo diretamente a frente da aeronave, alinhando com o símbolo da “linha de água”, um grande W  no centro do HUD, e com o auxílio da luneta identificar visualmente uma aeronave a grande distância. A idéia não era uma grande novidade, o F-4E Phantom antecessor do Eagle já havia sido equipado com um telescópio eletro-ótico conhecido como TISEO, que para tal aeronave resolvia o problema da identificação visual a longas distâncias, tais sistemas foram rejeitado para o F-15 para diminuir os custos de aquisição e operação do Eagle, entretanto a opção dos participantes da AIMVAL/ACEVAL foi uma barata solução de baixa tecnologia. Alguns Tomcats durante sua vida operacional foram equipados com um sistema similar ao TISEO conhecido como TCS AAX-1.

A Luneta de rifle montada á direita do HUD ficou conhecida como “Eagle eye”


A conhecida desvantagem da combinação Eagle/Tomcat + Sparrow, é que por ser de orientação semi-ativa, o míssil busca os sinais de radar que emitidos pela aeronave que o lançara são devolvidos pelo alvo, o que impõe um contínuo rastreamento radar sobre o alvo até que ele seja atingido pelo míssil; este era um detalhe que poderia ser explorado pelos agressores. Tal sinal de radar é uma forte indicação de que você está sendo alvejado e que o adversário está totalmente comprometido com você. No conflito do Vietnã a aviação norte americana já havia testado sistemas de alerta de sinal radar conhecido como RWR, inicialmente desenvolvido par enfrentar a ameaça dos mísseis SAM SA-2. O time vermelho experimentou usar um sistema "doméstico" chamado Fuzzbuster, que nada mais era que um detector de radares da policia rodoviária, usado para evitar multas por excesso de velocidade. Assim que iluminado pelo radar adversário, os fuzzbuster alertava o piloto, a tática então era fugir do ataque ou tentar ficar invisível no filtro Doppler dos radares dos Eagle/Tomcat oferecendo um aspecto de 90° numa trajetória quase perpendicular ao atacante, a tática muitas vezes funcionava. Logo o sistema RWR passou a ser emulado de maneira rudimentar através do sistema ACMI.


O Fuzzbuster funciona na estrada e no céu, fez a diferença em alguns combates aéreos.


 O inferno na torre

No escaldante sol do meio dia no deserto de nevada, oito guerreiros marcaram um enfrentamento, a arena de combate seria a área ACMI conhecida como “o curral” dentro do complexo da Base Aérea de Nellis, quatro Eagles de um lado e a quarenta milhas a frente quatro Tigers, todos rasgando o céu a grande altitude uns em direção aos outros a uma velocidade combinada de 1.200 nós, menos de dois minutos os separavam de um dogfight. A formação de F-15 vinha em uma formatura line abreast, alinhados lado a lado com uma boa separação entre eles, varriam todo o céu distante a sua frente, com seus poderosos radares. A formação de F-5 tinha o apoio de controladores de solo e vinha em dois pares cerrados separados por alguma distância, no radar deveriam aparecer apenas como dois pontos.

A formação de Eagles cometeu um grave erro na partilha de alvos, ao invés de fazer uma marcação "homem-a-homem", quatro F-15 apontaram seus radares e mísseis em apenas dois F-5 na Formação vermelha, os outros dois agressores provavelmente viram isto em seus aparelhos de RWR e continuaram impunemente em direção a seus adversários e livres para buscar uma vantagem posicional.

Mesmo com os pilotos dos Eagles podendo fazer o acompanhamento visual dos contatos através da caixa  designadora de alvo no HUD, cada um deles só poderia fazer o rastremento radar a um único alvo, perdendo o rastreio dos demais membros da formação vermelha, e os F-5 só seriam realmente vistos pelos olhos dos pilotos a cerca de 4 ou 5 milhas, e sua identificação positiva a menos que isto, os pilotos agressores podiam ver os grandes F-15 a cerca de 11 milhas com seus próprios olhos.
Em algum momento os Eagles decidiram disparar seus mísseis Sparrow antes da "merge" como é conhecida a fusão onde os combatentes fazem seu primeiro passe uns pelos outros no momento que marca o início o dogfight, logo os quatro AIM-7F virtuais abatiam dois Tigers.

AZUIS 2 - VERMELHOS 0
Os Eagles podia ser vistos de longe pelos dois agressores sobreviventes, e seus mísseis infravermelho virtuais de curto alcance eram all-aspect, agora sensíveis o bastante para rastrear mesmo o frio aspecto frontal do grade F-15 e sua esteira de ar quente atrás de seus dois potentes motores, eles podiam ser disparado antes da merge, cara-a-cara, e logo declararam a morte de dois Eagles.
AZUIS 2 - VERMELHOS 2
Ao atingir o primeiro passe dois Eagles vivos trocaram olhares com dois Tigers vivos, começava assim a briga dos quatro cães ferozes, curvas violentamente fortes logo puxavam seus narizes e mísseis em direção uns dos outros, os radares dos F-15 rapidamente acoplaram seus alvo e dispararam seus Sparrows, um instante depois os Tigers apontavam e disparavam seus mísseis IR contra os grandes Eagles. Logo em seguida os agressores foram abatidos.
AZUIS 4 - VERMELHOS 2
Os mísseis infravermelhos disparados pelos Tigers do tipo "dispare e esqueça", encontrariam  seus alvos sem qualquer apoio de seus lançadores, e continuaram seu voo virtual de forma autônoma em direção aos Eagles, encerrando assim o combate com o abate de ambos. Os dois Eagles foram abatidos por caras já "mortos".
AZUIS 4 - VERMELHOS 4
ou seria 
zero a zero
?
Do primeiro míssil disparado até a ultima aeronave abatida foi 1 minuto e 52 segundos de combate, e no fim todas as oito aeronaves abatidas. Este evento passou a ser conhecido como "Towering Inferno" nome de um grande sucesso do cinema na época, filme que no Brasil recebeu o nome de "Inferno na torre". Embora não sendo considerado um engajamento válido, era mais uma das demonstrações de que grandes e sofisticados aviões de caça continuavam sendo muito bons na teoria, mas nem sempre venceria na prática, a combinação dos ainda limitados mísseis aos sofisticados F-14 e o F-15 mostravam que ainda não tinham atingido a maturidade como sistemas de armas.
Lições

As consequências das avaliações ACE/AIM foram enormes. Entre os cinco mísseis virtuais testados, o AIM-9L ou Sidewinder "Lima" foi escolhido para ganhar vida. Ficou claro que o fato do radar APG-63 do Eagle ficar amarrado a um único alvo perdendo consciência situacional dos demais contatos no disparo de um míssil Sparrow era algo que precisava ser corrigido, levando a modificações no software do radar, e a busca por um novo míssil de médio alcance que posteriormente veio a ser o AMRAAM AIM-120. O desafio das avaliações estimulou o desenvolvimento de novas táticas, entre elas surgiram novos meios de sobreviver a tiros BVR, e mísseis IR all-aspect. A experiência prática mostrava vantagens tecnológicas ou de desempenho em determinadas áreas nem sempre resistem ao contato com o adversário, e que novamente as táticas bem elaboradas e executadas explorando determinadas desvantagens do adversário podiam contrabalançar suas eventuais vantagens.